Filhotes de trinta-réis-de-bando caem no mar durante a reprodução, mobilizando pesquisadores e voluntários em uma força-tarefa para preservar a espécie.
Uma colônia de trinta-réis-de-bando de bico amarelo, espécie ameaçada de extinção no Espírito Santo, passou a utilizar um dos pilares da Terceira Ponte, entre Vitória e Vila Velha, como área de reprodução. A mudança de comportamento ocorreu após a epidemia de gripe aviária, em 2023, e tem mobilizado pesquisadores, veterinários e voluntários em ações para proteger os filhotes.
Conhecida também como andorinha-do-mar, a espécie deixou de ocupar ilhas onde tradicionalmente fazia seus ninhos e encontrou no concreto da ponte um novo abrigo. No entanto, a estrutura oferece riscos à reprodução: muitos filhotes acabam caindo no mar antes de desenvolverem capacidade para voar.

Segundo especialistas, os filhotes deixam os ninhos poucos dias após o nascimento e caminham em grupos, comportamento natural da espécie. No espaço reduzido do pilar, porém, eles alcançam rapidamente a borda da estrutura e caem na água, onde podem morrer por hipotermia, já que ainda não possuem a impermeabilização natural das penas presente nas aves adultas.
Monitoramento e resgate
Durante toda a temporada reprodutiva, pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram) e voluntários acompanham diariamente a colônia. Até o momento, cerca de 100 filhotes já foram resgatados ou realocados para aumentar as chances de sobrevivência.
Sempre que possível, a equipe devolve os animais aos pais, evitando a retirada definitiva da natureza.
Solução improvisada ajuda a salvar filhotes
Uma das iniciativas adotadas foi a instalação de mais de 40 metros de tapetes flutuantes de EVA ao redor do pilar. O material funciona como plataforma para os filhotes que caem na água, permitindo que permaneçam em segurança enquanto continuam sendo alimentados pelos adultos.

Os pesquisadores afirmam que a medida reduziu as perdas e demonstrou que pequenas intervenções podem fazer diferença na preservação da espécie.
Especialistas defendem adaptações na ponte
Além do monitoramento, especialistas sugerem alterações permanentes na estrutura da Terceira Ponte, como a construção de pequenas barreiras ao redor do pilar para impedir que os filhotes alcancem a borda nos primeiros dias de vida.

A Companhia Estadual de Transportes Coletivos (Ceturb-ES), responsável pela operação da ponte, informou que está aberta ao diálogo sobre medidas de preservação, desde que qualquer intervenção seja definida em conjunto com os órgãos ambientais e respeite as normas de segurança da estrutura.
Espécie sofreu forte redução populacional
Os trinta-réis ganharam destaque nacional em 2023 por terem sido as primeiras aves a indicar a chegada da gripe aviária ao Brasil. Apesar da importância para o monitoramento da doença, a espécie foi uma das mais afetadas pela epidemia.
Pesquisadores estimam que, na década de 1990, cerca de 14 mil aves se reproduziam no Espírito Santo. Atualmente, restam entre 1.500 e 1.700 adultos reprodutores, o que reforça a necessidade de ações para evitar novas perdas.
O monitoramento da colônia segue até setembro, período em que pesquisadores e voluntários continuam acompanhando os ninhos e realizando resgates para aumentar as chances de recuperação da população da espécie no Estado.
