De Norte a Sul, cidades são desenhadas para afastar os mais pobres; no ES, realidade urbana repete lógica nacional de exclusão silenciosa
Quem circula pelas cidades do Espírito Santo talvez não perceba de imediato, mas há uma disputa silenciosa acontecendo nas ruas, praças e calçadas. Ela não envolve discursos nem protestos visíveis — está inscrita no concreto, no metal e no desenho urbano. É a arquitetura hostil, um conjunto de estratégias que, sob o argumento de organização e segurança, acaba excluindo principalmente os mais vulneráveis.
Bancos com divisórias que impedem alguém de se deitar, pedras sob viadutos, grades em espaços antes livres e até inclinações em superfícies: esses elementos não são neutros. Eles comunicam quem é bem-vindo e quem deve ir embora. E, nesse processo, moldam não só o uso da cidade, mas o comportamento e até as possibilidades de vida de seus habitantes.

O debate ganhou visibilidade nacional após ações do padre Júlio Lancelotti, que denunciou estruturas instaladas para afastar pessoas em situação de rua em São Paulo. No Congresso, o senador Fabiano Contarato propôs um projeto para proibir esse tipo de intervenção, apontando que esconder a pobreza não resolve suas causas — apenas a torna invisível.

No Espírito Santo, embora o debate ainda seja tímido, os efeitos dessa lógica já são perceptíveis. Regiões com maior valorização imobiliária tendem a restringir usos considerados “indesejados”, enquanto áreas periféricas seguem com infraestrutura precária e ausência de espaços públicos de qualidade. O resultado é uma cidade fragmentada, onde o acesso ao conforto urbano vira privilégio.
Arquitetura não é apenas estética — é política. Quando um espaço impede o descanso, reduz a permanência ou afasta determinados grupos, ele também limita encontros, trocas e experiências. Isso impacta diretamente a formação dos indivíduos. Crianças que crescem em ambientes urbanos acolhedores tendem a desenvolver maior senso de pertencimento e coletividade. Já aquelas expostas a espaços hostis vivenciam desde cedo a exclusão como regra.
Pesquisas na área de urbanismo mostram que a chamada “cultura do medo” — o receio constante do outro, do diferente, do pobre — tem influenciado decisões arquitetônicas nas últimas décadas. Em vez de investir em políticas sociais, muitas cidades optam por soluções físicas que afastam o problema do campo de visão. É mais barato esconder do que resolver.

Mas essa escolha tem um custo coletivo. Ao reduzir os espaços de convivência, a cidade perde sua função social. O arquiteto e pesquisador Leonardo Guelman define esse fenômeno como um “deserto de sociabilidade”, onde o espaço público deixa de ser lugar de encontro e passa a ser apenas passagem.
Em contrapartida, experiências internacionais mostram outro caminho. Países que investem em arquitetura humanizada — com espaços acessíveis, confortáveis e inclusivos — colhem benefícios que vão além da estética: redução da violência, fortalecimento do senso comunitário e melhoria na saúde mental da população.
No Brasil, e também no Espírito Santo, o desafio é romper com a lógica de que o problema está nas pessoas e não na estrutura. A presença de moradores de rua, por exemplo, não é causada pela falta de bancos “antimendigo”, mas pela ausência de políticas de moradia, renda e inclusão.
Ao transformar o espaço urbano em ferramenta de exclusão, o poder público e a iniciativa privada acabam reforçando um ciclo de pobreza sistematizada: a cidade afasta, o indivíduo perde oportunidades, e a marginalização se perpetua.
No fim, a pergunta que fica não é apenas sobre arquitetura, mas sobre projeto de sociedade: estamos construindo cidades para acolher ou para expulsar?

