Estar no comando do governo estadual, contar com uma trajetória política extensa e reunir aliados em diferentes regiões não garante, por si só, o reconhecimento popular nas urnas. A disputa entre Ricardo Ferraço (MDB) e Lorenzo Pazolini (Republicanos) expôs esse desafio na eleição para o Governo do Espírito Santo.
Na pesquisa Quaest divulgada em 24 de outubro, véspera do segundo turno, Pazolini apareceu com 55% dos votos válidos, enquanto Ferraço registrou 45%. O levantamento ouviu 2.154 pessoas, com margem de erro de dois pontos percentuais. Os números retratam as intenções de voto antes da votação, não o resultado oficial.
A dificuldade de criar identificação com o eleitor
Um dos pontos debatidos durante a campanha foi a capacidade de comunicação dos candidatos. Em entrevista à A Gazeta e à CBN Vitória, Ferraço reconheceu que talvez não tivesse a mesma simpatia nem o mesmo desempenho nas redes sociais que o adversário. Na ocasião, afirmou que sua prioridade era o trabalho, a capacidade de gestão e o diálogo.
A declaração colocou em evidência um dilema recorrente na política: a experiência administrativa precisa ser acompanhada de uma comunicação que permita ao eleitor compreender as propostas e perceber proximidade com quem pretende governá-lo.
O carisma é subjetivo, mas a maneira como um candidato se comunica pode influenciar a construção de sua imagem pública. Uma campanha centrada em realizações administrativas nem sempre consegue, por si só, criar identificação pessoal com o eleitorado.
O desafio do diálogo e do comprometimento percebido
Outro aspecto importante é a percepção de abertura para ouvir a população. A disposição para dialogar com comunidades, servidores públicos, setores produtivos e lideranças locais pode contribuir para a confiança em um projeto político.
Críticas sobre falta de diálogo ou de comprometimento, entretanto, precisam ser examinadas a partir de situações concretas, como demandas não atendidas, compromissos assumidos e resultados da gestão. Os números das pesquisas, isoladamente, não comprovam que esses fatores tenham determinado a posição de Ferraço na disputa.
Experiência ou continuidade da velha política?
Com uma trajetória que inclui mandatos como vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e vice-governador, Ferraço representa uma geração de políticos com longa participação na administração pública capixaba. Ele assumiu o Governo do Estado em abril de 2026, após a saída de Renato Casagrande.
Essa experiência pode ser apresentada como conhecimento da máquina pública e capacidade de articulação. Ao mesmo tempo, a permanência de figuras conhecidas no centro do poder pode alimentar, entre determinados eleitores, o desejo por renovação.
É nesse contexto que surge o debate sobre a chamada velha política: não apenas a idade ou o tempo de carreira de um candidato, mas a percepção de que práticas, alianças e formas de comunicação já conhecidas precisam responder às expectativas atuais da sociedade.
O que a disputa revela
A pesquisa divulgada na véspera do segundo turno mostrou Pazolini numericamente à frente. Mas compreender as razões desse cenário exige mais do que observar percentuais: é necessário analisar a avaliação da gestão, a imagem dos candidatos, as prioridades dos eleitores e a percepção sobre as propostas apresentadas.
A eleição colocou em evidência um desafio para quem ocupa o poder: demonstrar resultados administrativos e, ao mesmo tempo, estabelecer uma relação de confiança com a população.
No fim, a disputa entre experiência, continuidade e renovação é decidida pelos eleitores nas urnas.
