Entre a fé e o voto: onde estavam os políticos antes da campanha começar?

Aproximação com igrejas e comunidades aumenta em ano eleitoral, mas eleitor precisa questionar quem esteve presente durante os quatro anos

Em ano de eleição, algumas agendas que antes pareciam esquecidas passam a fazer parte da rotina de muitos políticos.

Cultos, congressos, eventos comunitários, inaugurações, visitas a bairros e encontros com lideranças religiosas começam a aparecer com muito mais frequência nas redes sociais. De repente, quem passou anos distante das comunidades descobre que conhece todo mundo e que sempre foi “amigo do povo”.

Mas fica uma pergunta incômoda: onde estavam esses políticos antes da eleição chegar?

A aproximação com igrejas e comunidades não é, por si só, um problema. Políticos têm todo o direito de participar de atividades religiosas e comunitárias. O que merece atenção é quando a presença parece surgir apenas quando o voto passa a ter valor eleitoral.

O eleitor não deve ser lembrado apenas de quatro em quatro anos

Durante o mandato, são muitos os problemas que continuam esperando respostas: saúde, educação, segurança, infraestrutura, transporte, emprego e qualidade dos serviços públicos.

É nesse período, longe dos palanques, que a população deveria cobrar seus representantes.

O político que pretende representar o cidadão não deveria aparecer apenas quando precisa de voto. Deveria estar presente quando uma comunidade reclama de uma rua abandonada, quando uma família enfrenta dificuldades para conseguir atendimento médico ou quando moradores precisam cobrar uma obra prometida.

Mandato não deveria ser temporada.

A velha estratégia do abraço e da fotografia

A cada eleição, a cena se repete.

O candidato chega, abraça lideranças, tira fotografias, participa de um culto, faz discursos emocionados e promete estar “ao lado do povo”.

Depois da eleição, muitos desaparecem.

As redes sociais ficam menos movimentadas, os bairros deixam de receber visitas e aquele contato direto que existia durante a campanha praticamente some.

O problema não é o abraço.

O problema é quando o abraço termina junto com a apuração dos votos.

Igrejas não são currais eleitorais

Outro ponto importante é o respeito às instituições religiosas.

Igrejas possuem papel social relevante e devem ser respeitadas como espaços de fé, acolhimento e comunidade. A aproximação de candidatos não pode transformar templos em instrumentos eleitorais ou comunidades religiosas em meros depósitos de votos.

O eleitor evangélico, católico ou de qualquer outra religião tem liberdade para escolher quem considera melhor preparado para governar ou legislar.

Fé não deveria significar voto obrigatório.

O eleitor precisa fazer a pergunta certa

Antes de decidir o voto, talvez seja mais importante perguntar:

Quem esteve comigo quando não precisava do meu voto?

Quem apareceu para ouvir os problemas da comunidade?

Quem apresentou propostas além de discursos?

Quem prestou contas do mandato?

Quem fiscalizou o dinheiro público?

Quem voltou depois da eleição para saber se a promessa foi cumprida?

Essas respostas dizem muito mais sobre um político do que uma fotografia tirada em um culto ou em uma comunidade durante a campanha.

A política precisa sair do calendário eleitoral

O Espírito Santo não precisa de políticos que descubram a existência da população apenas a cada quatro anos.

Precisa de representantes que estejam presentes permanentemente.

Que fiscalizem, cobrem, proponham e prestem contas.

Que apareçam quando a situação está difícil — e não somente quando há uma câmera ligada e votos a conquistar.

A eleição passa. O mandato passa. Mas os problemas da população continuam.

Por isso, neste ano eleitoral, o eleitor capixaba deveria olhar menos para o candidato que apareceu agora e mais para aquele que esteve presente antes.

Porque política não deveria ser uma visita de quatro em quatro anos.

E voto não é recompensa por uma foto, um abraço ou uma promessa. É uma escolha que pode definir o futuro de milhões de pessoas.

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