A repetição de casos de racismo envolvendo torcedores argentinos em competições internacionais voltou a levantar uma pergunta recorrente entre brasileiros e outros sul-americanos: por que esses episódios parecem acontecer com tanta frequência?
Embora especialistas alertem que não é correto afirmar que “os argentinos são racistas”, historiadores e pesquisadores reconhecem que há fatores históricos, culturais e esportivos que ajudam a explicar por que manifestações discriminatórias têm se tornado recorrentes, especialmente nos estádios de futebol.
Uma identidade construída sobre a imigração europeia
Um dos principais fatores apontados por pesquisadores está na formação da identidade nacional da Argentina.
Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o país recebeu milhões de imigrantes europeus, principalmente italianos e espanhóis. Ao mesmo tempo, governos da época promoveram uma narrativa de que a Argentina seria uma nação “branca” e europeia, minimizando a participação histórica das populações negras, indígenas e mestiças na construção do país.

Essa ideia foi reforçada durante décadas nos livros escolares, na política e até na produção cultural argentina.
Hoje, historiadores afirmam que essa narrativa apagou parte importante da história do país e contribuiu para a naturalização de estereótipos raciais.
O futebol amplia um problema social
Especialistas explicam que os estádios funcionam como um reflexo da sociedade.
Nos últimos anos, torcedores argentinos foram flagrados diversas vezes fazendo gestos que imitam macacos, dirigindo insultos racistas a jogadores negros e utilizando ofensas relacionadas à cor da pele contra atletas e torcedores adversários.


Grande parte desses casos ocorreu em partidas da Copa Libertadores, da Copa Sul-Americana e, mais recentemente, durante a Copa do Mundo de 2026.
O episódio envolvendo o streamer norte-americano IShowSpeed, alvo de insultos racistas durante um jogo da Argentina, voltou a chamar atenção internacional para o problema.
Racismo também existe em outros países
Pesquisadores ressaltam que o racismo não é um problema exclusivo da Argentina.
Brasil, Uruguai, Chile, Espanha, Itália, França e diversos outros países registram casos frequentes de discriminação racial, tanto no esporte quanto em outros ambientes.
A diferença, segundo especialistas, é que a repetição de episódios envolvendo torcedores argentinos acabou tornando o país um dos principais focos desse debate no futebol sul-americano.
Há reação dentro da própria Argentina
Apesar da repercussão negativa, movimentos antirracistas argentinos, jornalistas, acadêmicos e organizações de direitos humanos também vêm denunciando esses comportamentos e cobrando mudanças.

Nos últimos anos, campanhas educativas e discussões sobre diversidade passaram a ganhar espaço no país, embora pesquisadores afirmem que ainda há resistência de parte da sociedade em reconhecer a dimensão do problema.
Entidades esportivas discutem punições mais duras
A sucessão de casos fez aumentar a pressão sobre a Fifa e a Conmebol para endurecer as punições contra clubes e federações cujos torcedores pratiquem atos racistas.
Entre as propostas debatidas estão perda de pontos, eliminação de competições, fechamento de estádios e identificação obrigatória dos responsáveis.
Para especialistas em direitos humanos, entretanto, as sanções esportivas precisam ser acompanhadas por políticas permanentes de educação e conscientização.
Um problema que não define um povo
Embora muitos dos episódios mais recentes tenham envolvido torcedores argentinos, estudiosos alertam que seria incorreto concluir que o racismo representa toda a população do país.
Assim como ocorre em outras sociedades, milhões de argentinos rejeitam manifestações discriminatórias e atuam no combate ao preconceito. O consenso entre pesquisadores é que o enfrentamento ao racismo exige responsabilizar quem comete o crime, fortalecer a educação e evitar generalizações que transformem comportamentos individuais em características atribuídas a uma nacionalidade inteira.
