Especialista alerta que resíduos descartados incorretamente percorrem bueiros, rios e canais até chegar ao mar, agravando a poluição e ameaçando a vida marinha
Um simples copo descartável abandonado na calçada pode iniciar uma longa jornada até o oceano. Neste Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, especialistas chamam atenção para um problema que começa longe das praias: o descarte inadequado de resíduos nas cidades.
Segundo oceanógrafos, a chuva é uma das principais responsáveis por transportar o lixo urbano. Garrafas, embalagens, sacolas e outros materiais descartados nas ruas são levados para bueiros, galerias pluviais, córregos e rios, até alcançarem o mar.
“O oceano não começa na praia. Ele começa nas nascentes, nos córregos e nos rios que atravessam as cidades”, destaca o oceanógrafo Nelio Augusto Secchin.
Dependendo da intensidade da chuva e da proximidade com cursos d’água, um resíduo pode alcançar o sistema de drenagem em questão de minutos. Durante o percurso, o problema se agrava: plásticos maiores vão se fragmentando até se transformarem em microplásticos e nanoplásticos, partículas invisíveis que permanecem no ambiente por décadas.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que cerca de 11 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos. Alguns materiais podem levar mais de 450 anos para se decompor.
ameaça invisível
Embora o lixo acumulado nas praias seja o aspecto mais visível da poluição, especialistas alertam que grande parte dos resíduos permanece submersa ou flutuando em alto-mar.
Os microplásticos já foram encontrados em rios, manguezais, sedimentos marinhos, alimentos, água potável e até em tecidos humanos. Além disso, essas partículas funcionam como verdadeiras esponjas químicas, absorvendo contaminantes presentes na água.
animais confundem plástico com alimento
Entre os animais mais afetados estão as tartarugas marinhas, que frequentemente confundem sacolas plásticas com águas-vivas. Aves marinhas também ingerem fragmentos de plástico acreditando se tratar de peixes ou crustáceos e acabam alimentando seus filhotes com esses resíduos.
Além das espécies mais conhecidas, peixes, moluscos, crustáceos e organismos microscópicos também sofrem impactos diretos da contaminação.
plástico já faz parte da geologia do planeta
Um dos casos mais impressionantes registrados no Brasil ocorreu na remota ilha da Trindade, a mais de mil quilômetros da costa. Pesquisadores identificaram a formação de plastiglomerados, estruturas compostas pela fusão de plástico derretido com rochas e sedimentos naturais.
A descoberta é considerada um dos maiores símbolos do impacto humano nos ecossistemas marinhos e evidencia como a poluição plástica já está deixando marcas permanentes na história geológica da Terra.
pequenas atitudes fazem diferença
Especialistas reforçam que a redução da poluição depende tanto de políticas públicas quanto de mudanças de hábitos da população.
Entre as principais recomendações estão:
- reduzir o uso de plásticos descartáveis;
- separar corretamente os resíduos para reciclagem;
- evitar jogar lixo nas ruas;
- descartar linhas de pesca e bitucas de cigarro de forma adequada;
- priorizar produtos reutilizáveis;
- utilizar filtros em máquinas de lavar para reduzir a liberação de microfibras sintéticas.
A avaliação é que cada embalagem descartada corretamente representa menos resíduos em rios, manguezais e oceanos, contribuindo para a preservação dos ecossistemas marinhos e da biodiversidade.
