A Ecovias Capixaba informou que chegou a estudar alternativas para evitar a desapropriação do casarão centenário da família Perut, em Ibiraçu, mas concluiu que a preservação do imóvel exigiria impactos urbanos ainda maiores, incluindo a demolição de residências, comércios e parte de uma igreja católica.
Os 13 moradores do imóvel têm até o dia 26 de março para desocupá-lo. A área será utilizada para a construção do Contorno da BR-101 no município.
Segundo a concessionária, a única alternativa que permitiria manter integralmente o casarão seria transferir a duplicação da rodovia para dentro do perímetro urbano da cidade. A mudança, no entanto, implicaria um número significativamente maior de desapropriações e atingiria diretamente estruturas consideradas sensíveis pela relevância cultural e religiosa.
“Essa solução implicaria a desapropriação de um número significativamente maior de residências e estabelecimentos comerciais, além de parte da Igreja Católica localizada às margens da BR-101, espaço de relevante valor cultural, histórico e religioso para o município”, informou a concessionária em nota.
A empresa afirmou ainda que, em todos os traçados tecnicamente viáveis analisados, a manutenção do casarão é considerada inviável devido ao relevo da região e à proximidade com a rodovia, fatores que, segundo a Ecovias, representam risco à segurança de moradores e motoristas.
Imóvel tem mais de 100 anos e abriga quatro gerações
O casarão pertence à família Perut e tem mais de um século de existência. Treze pessoas vivem no local, incluindo a matriarca Aurora Perut Barbosa, de 100 anos, e o patriarca Pedro Barbosa, de 97.
O imóvel também abriga obras do artista plástico capixaba José Paulo Dileta.
O neto do casal, Daniel Perut, tenta desde o ano passado o tombamento histórico do imóvel em nível municipal e federal. A intenção era obter reconhecimento cultural para evitar a desapropriação e forçar a revisão do traçado da rodovia.
Com o avanço do processo judicial, no entanto, a família admite que a demolição pode ser inevitável.
“Infelizmente eu vou ter que ceder. Não é da minha vontade nem da família, mas não temos alternativa. Vai se perder uma parte da história de Ibiraçu”, lamentou Daniel.
Valor da indenização é contestado
O representante da família afirma que o valor oferecido pela concessionária é inferior a R$ 1 milhão. Segundo ele, uma avaliação particular estimou o imóvel em cerca de R$ 6 milhões.
“Não é um valor justo. Não é suficiente para garantir dignidade aos meus avós nesse final de vida”, declarou.
Tentativa de tombamento gera impasse
A família buscou apoio da prefeitura para o tombamento municipal do casarão, mas o município informou que não há processo administrativo em andamento para reconhecimento do imóvel como patrimônio histórico.
A prefeitura afirmou que acompanha o caso dentro das competências legais e reconhece a importância da obra para o interesse público.
Já o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional declarou que o imóvel não possui tombamento federal, mas ressaltou que não há impedimento para reconhecimento em nível municipal, caso sejam comprovados valores históricos e culturais locais.
Outras áreas também serão desapropriadas
Além do casarão, cerca de 20 áreas estão no traçado das obras do Contorno da rodovia, incluindo cafezal, cerimonial e madeireira. Proprietários relatam insatisfação com os valores oferecidos nas negociações.
A concessionária afirma que as indenizações seguem critérios técnicos previstos em lei e são baseadas em vistorias detalhadas e relatórios aprovados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres.
Presidente da Câmara critica projeto
O presidente da Câmara Municipal de Ibiraçu, Breno Lúcio, se posicionou contra o modelo atual do Contorno da BR-101. Segundo ele, a retirada do fluxo de veículos pesados do centro pode prejudicar a economia local.
“Lanchonetes, restaurantes e comércios podem fechar. O fluxo pode cair 50% ou mais”, afirmou.
Sobre o casarão, o vereador defende o tombamento.
“Há elementos históricos e culturais que merecem ser preservados. Poderia se tornar um museu ou ponto cultural.”
