Desrespeito nas ruas expõe cultura de violência no trânsito, falta de fiscalização e desconhecimento alarmante sobre direitos e deveres
Basta tentar atravessar uma avenida movimentada em qualquer cidade brasileira para perceber uma realidade revoltante: a faixa de pedestre, que deveria representar segurança, virou apenas tinta no asfalto.
Em muitas ruas e rodovias urbanas, pedestres esperam minutos inteiros diante da sinalização enquanto carros, motos, ônibus e caminhões passam em alta velocidade sem sequer reduzir. O cenário é tão comum que muita gente já atravessa correndo, com medo, mesmo estando dentro da lei.
O problema vai muito além da imprudência. Especialistas em mobilidade apontam que existe no Brasil uma cultura histórica de desprezo ao pedestre. O motorista se sente dono da via. O pedestre, por outro lado, muitas vezes sequer conhece os próprios direitos ou os cuidados mínimos exigidos no trânsito.
Pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o pedestre tem prioridade na faixa. O motorista é obrigado a reduzir a velocidade e parar sempre que houver alguém atravessando ou prestes a atravessar. A infração é considerada gravíssima, com multa e pontos na carteira.

Na prática, porém, a regra é ignorada diariamente.
Em cruzamentos urbanos, é comum ver veículos acelerando para “não perder a vez”, mesmo com idosos, crianças e pessoas com deficiência tentando atravessar. Em alguns casos, motoristas chegam a buzinar ou xingar pedestres que exercem um direito básico.
O resultado dessa combinação entre desinformação, pressa e impunidade aparece nas estatísticas. Dados nacionais mostram milhares de atropelamentos todos os anos, muitos deles em áreas urbanas onde deveria haver maior proteção ao pedestre.
O cenário se agrava nas periferias e em cidades onde faltam passarelas, iluminação adequada, semáforos para travessia e fiscalização constante. Em várias regiões, moradores arriscam a própria vida diariamente para cruzar avenidas e rodovias sem qualquer estrutura de segurança.
Mas a responsabilidade também não é apenas dos condutores.
Muitos pedestres atravessam fora da faixa, utilizam celular durante a travessia, caminham entre carros ou ignoram sinais de trânsito. A falta de educação no trânsito atinge todos os lados e revela um problema estrutural no país: o brasileiro aprende a dirigir, mas não aprende convivência urbana.
O trânsito brasileiro se transformou em um espaço de disputa, não de respeito.
Enquanto países europeus tratam o pedestre como prioridade absoluta, no Brasil quem está a pé frequentemente é tratado como obstáculo. Em várias cidades da Europa, basta o pedestre se aproximar da faixa para os veículos pararem automaticamente. Aqui, muitas pessoas precisam praticamente implorar passagem.
Especialistas afirmam que campanhas educativas isoladas já não são suficientes. Sem fiscalização pesada, multas efetivas e mudanças culturais profundas, o desrespeito continuará transformando ruas em cenários de tensão permanente.
