O cenário dos valões no Espírito Santo não é apenas incômodo — é um problema estrutural que se arrasta há décadas e que ainda está longe de uma solução definitiva. Em cidades como Vila Velha, Cariacica e Serra, esses canais poluídos fazem parte da paisagem urbana e da rotina de milhares de moradores.
Dados recentes do saneamento no Brasil mostram que o país ainda trata pouco mais da metade do esgoto gerado. No Espírito Santo, apesar de avanços nos últimos anos, ainda há áreas inteiras sem cobertura adequada — o que ajuda a explicar por que tantos valões seguem ativos, recebendo diretamente resíduos domésticos e urbanos.
Um problema visível — e ignorado
Os valões são, na prática, rios urbanos mortos. Recebem esgoto sem tratamento, lixo e até resíduos industriais. O resultado é um ambiente degradado, com água escura, cheiro forte e alto risco sanitário.
O mais chocante é o contraste: em Vila Velha, por exemplo, há trechos onde esses canais passam próximos a áreas valorizadas, com comércio forte e grande circulação de pessoas, enquanto seguem cortando bairros mais humildes onde moradores convivem diariamente com o problema.
É uma desigualdade exposta a céu aberto.
Impacto direto na saúde e na dignidade
Especialistas alertam que áreas com esgoto exposto têm maior incidência de doenças como leptospirose, hepatite A e infecções intestinais. Além disso, há proliferação de mosquitos, o que aumenta o risco de arboviroses.
Em períodos de chuva, a situação se agrava ainda mais. Os valões transbordam, levando sujeira para dentro das casas e ampliando os riscos para a população.
Pode virar rio limpo?
Sim — mas não sem investimento pesado.
Experiências em outras cidades mostram que é possível recuperar esses canais, transformando-os em rios urbanos com tratamento de esgoto, drenagem adequada e áreas de convivência. Isso exige obras estruturais, como:
- ampliação da rede de coleta e tratamento de esgoto
- despoluição dos cursos d’água
- urbanização das margens
- manutenção contínua
Sem isso, qualquer intervenção é apenas paliativa.
Décadas de promessas
O problema dos valões não surgiu agora — e também não é falta de diagnóstico. Há anos ele aparece em planos urbanos, discursos políticos e campanhas eleitorais.
O que falta, segundo especialistas e moradores, é continuidade. Obras começam, param, mudam de gestão e muitas vezes não chegam ao resultado esperado.
Enquanto isso, a população segue convivendo com o que deveria ser inaceitável em qualquer cidade: esgoto a céu aberto.
Uma vergonha que não pode ser normalizada
Em pleno século XXI, é difícil justificar que regiões inteiras ainda convivam com valões fedendo, poluídos e abandonados — muitas vezes à vista de todos, inclusive em áreas centrais e valorizadas.
O problema deixou de ser apenas ambiental. É social, urbano e, principalmente, humano.
Resolver os valões no Espírito Santo não é só uma questão de obra pública. É uma questão de prioridade — e de respeito com quem vive todos os dias ao lado desse cenário.
