Brasil das dinastias: o país ainda pertence às mesmas famílias?

De José Sarney aos clãs regionais, sobrenomes históricos continuam controlando política, mídia e poder econômico enquanto milhões vivem sem estrutura básica.

O Brasil gosta de se vender como uma democracia moderna. Mas basta olhar para os bastidores do poder para perceber uma realidade desconfortável: o país continua sendo comandado por famílias políticas que atravessam gerações ocupando cargos públicos, controlando verbas, dominando emissoras de TV, influenciando tribunais e transformando o Estado em uma extensão dos próprios sobrenomes.

O caso do ex-presidente José Sarney talvez seja o retrato mais simbólico desse sistema.

Reprodução da foto José Sarney. Obra localizada no Acervo do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro).

Sarney governou o Brasil após o fim da ditadura militar e se consolidou como um dos homens mais influentes da política nacional. Mas sua força nunca ficou restrita a Brasília. Durante décadas, o Maranhão viveu sob a influência direta da chamada “Oligarquia Sarney”, termo amplamente usado para definir o domínio político da família no estado.

O contraste chama atenção: enquanto o grupo acumulava poder político, econômico e midiático, indicadores sociais do Maranhão frequentemente colocavam o estado entre os mais pobres do país. Em diversos períodos, cidades maranhenses apresentaram índices de saneamento, infraestrutura e renda comparados aos de países extremamente pobres, como o Haiti.

E existe um detalhe ainda mais simbólico: o nome Sarney está espalhado pelo mapa brasileiro.

Há cidade chamada Presidente Sarney, além de avenidas, escolas, hospitais, fóruns, pontes e bairros batizados em homenagem ao ex-presidente e à família. Em muitos casos, as homenagens ocorreram enquanto o grupo ainda mantinha enorme influência política.

A pergunta inevitável surge: isso é reconhecimento histórico… ou culto ao poder?

O Brasil parece nunca ter abandonado completamente a lógica das capitanias hereditárias. Mudaram os nomes, mudaram os partidos, mas o poder continua circulando entre poucos grupos familiares.

E Sarney está longe de ser um caso isolado.

As famílias que continuam mandando no Brasil

Diversos estados brasileiros seguem dominados por clãs políticos históricos:

  • Os Renan Calheiros e os Calheiros em Alagoas;
  • A família Antônio Carlos Magalhães na Bahia;
  • Os Barbalho no Pará;
  • Os Jereissati no Ceará;
  • Os Caiado em Goiás;
  • Os Collor em Alagoas;
  • Os Cunha Lima na Paraíba;
  • Os Alcolumbre no Amapá.

Em muitos casos, filhos viram deputados, sobrinhos assumem prefeituras, irmãos comandam tribunais de contas e aliados ocupam secretarias estratégicas. O poder político passa de geração em geração como herança familiar.

E o mais assustador: isso foi naturalizado.

Democracia ou feudos modernos?

Especialistas apontam que o Brasil vive uma espécie de “coronelismo moderno”, onde eleições existem, mas as estruturas de poder permanecem concentradas nas mãos de grupos tradicionais.

Em algumas regiões, famílias controlam simultaneamente:

  • rádios;
  • TVs;
  • jornais;
  • construtoras;
  • partidos;
  • prefeituras;
  • cadeiras no Congresso.

Ou seja: controlam a narrativa, o dinheiro e a política ao mesmo tempo.

Não é coincidência que muitas dessas regiões também convivam com pobreza histórica, dependência econômica e baixa mobilidade social.

O Brasil realmente mudou?

O mais provocador nessa discussão é perceber que o país saiu oficialmente da lógica colonial… mas talvez nunca tenha abandonado sua estrutura mental.

Em 1534, a Coroa Portuguesa dividiu o território em capitanias hereditárias entregues a poucas famílias. Séculos depois, o mecanismo parece apenas ter trocado de roupa.

Hoje não existem donatários oficiais.

Existem sobrenomes.

E talvez o maior escândalo não seja apenas a permanência dessas famílias no poder, mas o fato de boa parte da população já enxergar isso como algo normal.

Porque quando hospitais públicos, avenidas, escolas e cidades carregam os nomes dos próprios políticos que controlam a máquina estatal, a democracia começa a se confundir perigosamente com veneração de poder.

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