Caso Apex pode ganhar dimensão política e colocar eleição do Espírito Santo sob pressão

Eventual colaboração de Fernando Cinelli poderia esclarecer bastidores da empresa e atingir um cenário político marcado pela disputa entre Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini

A crise da Apex Partners, que já provocou uma batalha judicial e colocou sob investigação movimentações milionárias, pode ganhar uma dimensão ainda maior no Espírito Santo: a política.

O motivo está nas conexões existentes entre a empresa e duas famílias que ocupam posições de destaque no cenário eleitoral capixaba.

Pedro Chieppe Ferraço, filho do governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço (MDB), é acionista da Apex e ocupou o cargo de vice-presidente institucional da companhia. Ele também foi eleito diretor de compliance da Rhino Securitizadora, empresa responsável por debêntures que representam R$ 452,1 milhões do passivo informado pela Apex.

Do outro lado está Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande, candidato ao Senado. Victor aparece como diretor institucional da Apex e já foi apresentado publicamente como sócio-diretor da companhia.

Até o momento, não há informação pública que atribua a Pedro Ferraço, Victor Casagrande, Ricardo Ferraço ou Renato Casagrande participação nas inconsistências financeiras investigadas na Apex. A própria imprensa que acompanha o caso ressalta essa ausência de evidências.

O que Cinelli sabe?

É justamente nesse ponto que o caso pode ficar politicamente explosivo.

A Justiça determinou o bloqueio dos bens de Fernando Cinelli e a quebra de seu sigilo bancário depois que foram identificadas transferências de aproximadamente R$ 5 milhões da ABM Partnership para uma conta pessoal do ex-presidente. Uma auditoria interna também apontou movimentações superiores a R$ 23 milhões relacionadas a contas ligadas a Cinelli.

Cinelli, por sua vez, contesta a ideia de que teria tomado sozinho as decisões que levaram à crise. Ele recorreu à Justiça justamente para obter documentos internos que, segundo sua defesa, poderiam demonstrar que operações relevantes passavam por comitês e outras instâncias de decisão.

E é aí que surge a principal pergunta política:

Se Cinelli decidir colaborar de maneira ampla com as investigações, o que poderá revelar sobre quem participava das decisões estratégicas da Apex?

A resposta, caso envolva novas pessoas ou operações ainda desconhecidas, poderá ter consequências que ultrapassem o ambiente empresarial.

Uma eleição no centro do furacão

O caso chega em um momento particularmente delicado para a política capixaba.

De um lado, está Ricardo Ferraço, atual governador e candidato à reeleição. Do outro, Lorenzo Pazolini, ex-prefeito de Vitória e candidato ao governo do Estado.

Ricardo conta ainda com o apoio político de Renato Casagrande, que deixou o governo para disputar uma vaga no Senado. A disputa entre Ferraço e Pazolini é apontada como uma das principais eleições do calendário capixaba de 2026.

A crise da Apex, portanto, pode se transformar em munição política para a oposição caso novas informações revelem relações, decisões ou operações envolvendo pessoas próximas aos grupos que disputam o Palácio Anchieta.

Não se trata de afirmar que exista irregularidade eleitoral ou participação dos políticos no caso Apex. Trata-se de reconhecer que a proximidade empresarial de integrantes das famílias Ferraço e Casagrande com a companhia torna qualquer nova revelação potencialmente relevante para a campanha.

“Quem sabia de quê?”

Essa é a pergunta que começa a ganhar força nos bastidores.

Se as investigações avançarem e demonstrarem que determinadas decisões passaram por diferentes níveis da estrutura da Apex, a apuração poderá deixar de se concentrar exclusivamente na atuação de Cinelli e do ex-diretor financeiro Eduardo Siqueira.

O próprio Cinelli sustenta que não tomava decisões isoladamente e busca documentos para comprovar essa versão.

Uma eventual colaboração, portanto, poderia ajudar investigadores a reconstruir a cadeia de comando, identificar quem autorizava determinadas operações e esclarecer como decisões que contribuíram para um passivo próximo de R$ 1 bilhãoforam tomadas.

O impacto eleitoral

É justamente aí que está o potencial impacto sobre a eleição.

Caso novas informações atinjam pessoas próximas às duas principais forças políticas que disputam o governo estadual, o episódio poderá ser explorado eleitoralmente e mudar o discurso da campanha.

Para Ferraço, qualquer revelação envolvendo integrantes de sua estrutura familiar ou empresarial poderia representar desgaste político.

Para Pazolini, o caso poderia abrir espaço para um discurso de cobrança por transparência, fiscalização e responsabilização.

Mas há uma ressalva fundamental: até agora, não há evidência pública de que Ricardo Ferraço, Renato Casagrande ou seus filhos tenham participado das irregularidades financeiras investigadas na Apex.

O que existe são conexões empresariais documentadas e uma investigação que ainda está em andamento.

A pergunta que pode valer uma eleição

Com a Justiça apertando o cerco sobre Fernando Cinelli, auditorias em andamento e novas informações surgindo praticamente todos os dias, o caso Apex pode deixar de ser apenas uma crise empresarial.

Se o ex-presidente apresentar informações novas às autoridades — especialmente sobre a cadeia de decisões, operações financeiras e eventuais participantes — o conteúdo dessas revelações poderá ter forte repercussão política.

Em uma eleição tão apertada e polarizada, uma eventual revelação envolvendo os bastidores da Apex poderia mudar o discurso dos candidatos e até alterar o equilíbrio da disputa pelo Governo do Espírito Santo.

Por enquanto, porém, a pergunta permanece sem resposta:

Fernando Cinelli sabe quem mais participou das decisões que levaram a Apex à atual crise?

E, se souber, estará disposto a contar?

O Acontecendo no ES continuará acompanhando o caso.

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